A Carta
Lias a carta,
uma última carta
O sol a pôr-se
A noite a chegar
Uma carta guardada,
Gaveta de cima
Fechada no tempo
Uma brisa morna
As luzes cansadas
Tu não estás esquecida
No silêncio do tempo
Uma honra firme
Um cisne que voa
Para longe das flores
Lias a carta
Uma última carta
Palavras ao vento
Junto ao rio azul
Uma carta guardada
Gaveta de cima
Fechada no tempo
Gaivota
Segue-me bem, gaivota,
que navego em alto mar
até chegar a terra,
aos braços da minha amada.
Gaivota vem, gaivota vai,
avisa em terra
quem está a chegar.
Já superei ventos violentos,
ondas altas no mar bravo,
e nada detém este coração
do amor que o espera.


Enquanto dormes
Escuto os teus movimentos
nas brumas da manhã.
O teu sono —
um ritmo lento
ao lado do meu.
Nada faço
senão permanecer.
Sigo o caminho entre as brumas,
sem perguntar
quando se dissipam.


O tempo passa
sem medida:
o teu,
o meu,
este breve intervalo
em que existes perto.
No silêncio,
as palavras aproximam-se —
mas não cabem.
A lua sabe delas.
Penso-te
na linguagem que não digo.
Agora,
não quero falar.
Escuto-te.
Enquanto dormes.
E guardo
o instante suspenso
antes do despertar.
Papoila
Não lembro em que dia.
Sei que pintei uma papoila.
Senti-te na distância,
no silêncio do nevoeiro.
Em sombra te tornaste,
negra do meu luto.


Era inverno
e eu, apenas uma coisa ali.
Hoje caminho nesse silêncio
e a neblina recolheu-se.
Na distância permaneces
e do dia não me lembro.
Sei que te pintei.

Moldura
Neste inverno coloquei-te no meu canto,
no quarto onde durmo,
onde as orquídeas saúdam o dia.
Este inverno é mais frio.
A minha alma:
paisagem de neve e gelo.
Pintei-te no calor do verão.


És sombra que o sol ilumina,
na praia de mar tranquilo,
braços suspensos
em despedida.
Só neste inverno te consegui emoldurar.
Coloquei-te no canto do quarto
e durmo com as orquídeas.

Amantes do Sol (Fragmentos # 1)
Sonhadores
nunca aprendem
a largar
seus amores,
suas belezas,
seus caminhos
sem retorno.


São
amantes do sol
que queima
a pele enrugada
da cicatriz.
E,
à porta
do quarto,
mandam-te
entrar...

Flor do Alecrim
Que venha agora o vento
Soprando a tristeza para além
Que a misture com as folhas
Com as chuvas de outono também
Que o alecrim traga muita flor
Pela segunda vez neste ano
Traz o teu cheiro, traz o teu nome
Toda a beleza do ser humano


Que volte o sorriso com o frio
Na hora certa de regressares
A porta aberta só se fecha
Pela noite, quando chegares
Que caia a primeira neve
Os nossos beijos a façam derreter
À minha beira, aqui estás
Não te faças mais perder

Estou aqui a dizer
Estou aqui a dizer-te
que fechei a porta,
que não tranquei o coração
e, ao mesmo tempo,
escuto o eco da onda
depois de bater nas rochas.
Só estou aqui a dizer
que, atrás do horizonte,
a porta se reabrirá
e, ao mesmo tempo,
escuto as lembranças
e os ecos dos porque e dos porquês.
E não digo aqui
aquilo que te dizia sempre,
aquilo que já não te posso dizer.
E, ao mesmo tempo,
ao escutar todos os ecos,
eles dizem-me para largar.


Para mim, o tempo parava.
Para ti, o tempo diminuía.
Ao longe, uma onda morria.
Ao longe, a gaivota lamentava.
Depois, saías.
Depois, ficava.
Levavas-me contigo.
Eu guardava-te em mim.


Ficávamos a correr nas veias,
a fluir na esperança
de que o nosso cheiro
fosse interminável.
Mas fomos como a onda,
no lamento da gaivota.
E assim, o tempo terminou.
E assim, o coração parou..